Assim como aconteceu com o histórico estádio do Maracanã no Rio de Janeiro, pode ser a vez do Pacaembu cair nas mãos de alguma grande empresa
O plano de concessão do estádio é comandado pelo Secretário dos Esportes da administração de Fernando Haddad, o vereador licenciado Celso Jatene, do PTB, e foi apresentado oficialmente no mês de Junho pela prefeitura.
Segundo a secretaria de Esportes, com a construção das arenas do Corinthians e Palmeiras até 2015 o Pacaembu não terá o mesmo uso frequente, o que pode trazer mais despesas que lucros para o estado: “A média no ano passado (2012) foi de um investimento em torno de 5 milhões de reais, tendo uma receita de 4 milhões”, afirma a Assessoria em entrevista com o mídia NINJA. Desta forma a administração municipal acredita que a venda do estádio para a iniciativa privada pode ser benéfica para a sua manutenção.
Mas será que essa é a melhor alternativa para o Pacaembu depois da Copa?
Na opinião de Rodrigo Mauro, da Associação Viva Pacaembu, o estádio deve beneficiar a cidade e não empreendimentos privados: “O Estádio é um bem público, municipal, ou seja, de todos nós, paulistanos. E deve continuar assim”. O grupo, que é formado por moradores do bairro em São Paulo, luta contra a concessão do Paulo Machado de Carvalho e defende a utilização do espaço do estádio para a criação de um Centro Esportivo que pode ser utilizado por crianças e adolescentes que estudam na rede pública estadual.
Uma das conquistas da Associação foi uma ação judicial em 2004 que impede o uso do local para eventos que eles consideram prejudiciais ao bairro, como grandes shows. A medida acabou se tornando um empecilho para antigas administrações municipais, como a de Gilberto Kassab, que tentou trazer para o Pacaembu o UFC (Ultimate Fighting Championship), famoso torneio internacional de artes marciais mistas. Para Rodrigo, caso a prefeitura conceda o estádio para a iniciativa privada, a ação judicial conquistada pelos moradores do bairro corre risco de ser anulada.
GAVIÃO DE OLHO
Outro grupo que se opõe ao processo de concessão do Pacaembu para a iniciativa privada é a torcida organizada corintiana Gaviões da Fiel: “Uma concessão ou uma privatização de um Bem Público é a mostra mais contudente de ineficiência do Estado sobre esse Bem, sobre esse Patrimônio", afirma Alex Minduin, um dos dirigentes da Gaviões. Para ele, se existe "a vontade do Estado e a necessidade de conceder algo para a iniciativa privada, há também a deficiência do mesmo em gerenciar".
Quando questionado sobre a declaração de Jatene sobre o Pacaembu cair em desuso, o dirigente da organizada declarou que "o estádio não pode ser visto só pela questão do futebol em si, mas também pela questão da elaboração de uma feira, de um encontro religioso, ou seja, têm mil e uma utilidades para um estádio como o Pacaembu" em contradição à proposta dos moradores do bairro.
Segundo a Secretaria, o projeto de concessão do Pacaembu tem sido estudado por sua Assessoria Jurídica dos Esportes desde o começo de 2013: “Esse estudo foi entregue ao secretário Celso Jatene e tem como componentes principais os seguintes termos: concessão do estádio para a iniciativa privada, manutenção do Museu do Futebol e modernização do Centro Esportivo Municipal - este último retornará ao poder público assim que finalizado”. A Assessoria ainda informa que não existe um prazo definido para seguir com o andamento do processo de concessão, mas que o objetivo de Celso Jatene é que a situação esteja encaminhada até o início da Copa, em 2014. Mesmo assim, quem decidirá o futuro do estádio é o prefeito de São Paulo.
Um dos interessados na aquisição do Pacaembu é o Santos, clube de futebol do litoral paulista. O presidente Luis Alvaro de Oliveira Ribeiro chegou a confirmar publicamente a intenção do time em ter o estádio como sua “segunda casa”, além da Vila Belmiro na cidade de Santos. O que torna o tema ainda mais polêmico, já que o secretário Celso Jatene é um dos conselheiros efetivos do clube e também um dos fundadores da Torcida Jovem, organizada do time do litoral paulista.
Questionado sobre um possível conflito de interesses devido a ligação do secretário com um dos maiores interessados no processo de concessão, a Assessoria afirma que a situação é apenas uma coincidência.
BRAZIL DE TODOS
Embaladas pelas festividades dos grandes eventos, a Copa do Mundo e os jogos Olímpicos, as privatizações e concessões seguem a todo vapor no Brasil. Aeroportos, ferrovias, portos e estádios passam pelo mesmo processo. A grande mídia e o poder público, que deveriam agir na manutenção do bem comum, estimulam a euforia coletiva em torno da Copa e não abrem o debate para a sociedade.
Para João Whitaker, professor de Estudos Sócio-Econômicos e Evolução Urbana na FAU-Mackenzie, o poder público no Brasil não cumpre sua função de preservar o bem da sociedade. “Na verdade, nós não temos um poder público como muitas vezes nos referimos, de ser um agente que media a sociedade buscando o bem da coletividade. O Estado brasileiro atua como mediador dos interesses privados do mercado. Enquanto a gente não inverter essa lógica, fica difícil de mudar a natureza dessa cidade privatizada”.
Texto:
Francisco Toledo
Thais Gregório
Caio Hungria